Contribuições da neurociência para pedagogias outras

Marcia Reis: Sou formada em Letras (Português/Inglês) pela UVA (2000) com especialização e mestrado na área de Estudos da Linguagem (PUC-Rio). Trabalho há mais de 20 anos na rede particular de ensino e há 10 anos com ensino a distância. Interesso-me particularmente pela interface da linguagem e da cultura como constituídas e constitutivas de nossas subjetividades e os reflexos destas relações nas formas de serestarpensarsentir o mundo. Atualmente sou mestranda do PPGE da UFRJ e venho investigando questões relativas ao ensino da língua inglesa, a interculturalidade e a pedagogias outras.





“A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tão pouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar.” (Freire, 1987:78)


Nas últimas três décadas, presenciamos o surgimento de disciplinas que dialogam com a neurociência; i.e, que buscam estabelecer uma ponte com as descobertas, os estudos, as pesquisas relacionadas ao funcionamento do cérebro e da mente como um novo caminho para buscar entendimentos sobre nós, seres humanos, e as relações que estabelecemos no/com o mundo. Sabemos que os insights de um campo do conhecimento podem afetar outras áreas de saber, como podemos observar na interface da pedagogia, da interculturalidade e da neurociência.

Estudos recentes sobre o funcionamento cerebral (VAN DER POL, 2019; SHAULES, 2008,2014, ORTEGA e VIDAL, 2016, KITAYAMA e SALVADOR, 2017) ressaltam que o cérebro é o lócus onde todo processamento mental de qualquer ação, pensamento, sentimento, experiência humana acontece, ajudando a redefinir a forma pela qual entendemos a interação entre cultura, cérebro e mente. Cultura não seria apenas uma representação social compartilhada entre indivíduos de uma dada sociedade; ela seria a materialização neuroanatômica das experiências vividas: normas, linguagem, rituais, entre outros. Em outras palavras, a cultura afetaria não só as funções neurais, bem como a estrutura cerebral.

Em psicologia cultural, a cultura, ou seja, um sistema de valores, crenças e práticas sociais, é entendida como algo que afeta direta e poderosamente a estrutura da mente humana por meio das experiências sociais. Essa plasticidade cerebral, essa capacidade de estabelecer sinapses a partir de estímulos gerados por experiências culturais permite novas aprendizagens e o desenho de novos caminhos neurais que podem resultar em novas formas de perceber, agir, interagir e estar no mundo. Entender como a cultura modela nossas mentes e define de forma profunda nossas experiências nos enche de esperança para pensarmos na construção de outros mundos possíveis - mais democráticos, mais igualitários e mais justos, papel de toda pedagogia engajada, crítica e comprometida com o bem comum.

Neste sentido, ao dialogar com bell hooks, entendo que uma boa educação deve assumir este compromisso ininterrupto com a justiça social, criando dentro de cada sala de aula um espaço de engajamento e aprendizado intenso e genuíno, pois somente em um ambiente em que a educação é valorizada como prática da liberdade, a democracia e a cidadania responsável se estabelecem e se fazem fértil.

Compreender o elo entre mente, cérebro e cultura, perceber as implicações reais dessas relações e seus desdobramentos para o ensino de línguas, por exemplo, é essencial dentro de uma perspectiva emancipatória, visto que tais representações mentais influenciam a forma como nos percebemos, percebemos os outros e como interagimos com o mundo que nos rodeia. Em um mundo hiperconectado, mas, paradoxalmente, mais enclausurado em múltiplas e isoladas bolhas de informações, oferecer aos estudantes oportunidades de refletir sobre seu próprio contexto e de outras pessoas a partir de um viés histórico-político-social permitirá que se narrem e que coexistam diversas histórias e diferentes saberes.

Como nos faz refletir a psicanalista Christine Revuz, o aprendizado de um novo idioma vem provocar, questionar e modificar tudo o que está já estruturado em nossa subjetividade com as palavras na primeira língua. Ao nos depararmos com outras histórias e saberes no/pelo discurso em uma outra língua, tais experiências permitirão reorganizar nossos valores, crenças, sentimentos e práticas. Apesar da nossa conectividade, como sinalizado, ainda vivemos em uma comunidade global extremamente fragmentada e conflituosa, com contato entre culturas bastante superficial e estereotipado.

Para desenvolvermos níveis de compreensão intercultural realmente profundos, como Joseph Shaules, especialista em estudos interculturais e da mente acredita, precisamos compreender tanto os processos cognitivos conscientes – sensibilidade intercultural ou conscientização intercultural – como inconscientes, pois estes são aprendidos por meio de nossas experiências e do reconhecimento de padrões, portanto, o aprendizado intercultural é uma oportunidade de crescimento pessoal e coletivo.

Assumindo este viés para abordarmos questões de aprendizagemensino, entendo que ele permite que educadores e educandos se deparem e dialoguem com outras culturas de forma positiva, respeitosa e equipolente, acenando para a emancipação de ambos: dos sujeitos e das culturas, pois todos podem contar suas histórias.

Trabalhar dentro dessa perspectiva, como nos fala Catherine Walsh, é questionar continuamente as relações de poder que existem na sociedade para tornar visível outras formas de viver e de saber que são comumente marginalizadas e invizibilizadas, permitindo que todos nós – educandos e educadores – cruzemos fronteiras que seriam impossíveis de atravessar de outro modo.

No espaço da sala de aula temos a possibilidade de criar discursivamente as mudanças que desejamos ver no mundo através de uma prática pedagógica que valoriza as diferenças como oportunidades de elaborar novos saberes a partir das problematizações, do enfrentamento dos conflitos, a partir de atividades que encorajem os estudantes a explorar tanto a sua própria cultura quanto as demais culturas mediados pela linguagem, implicando a compreensão de que a aprendizagemensino de línguas envolve não só questões linguísticas, mas também culturais, econômicas, políticas, éticas e de poder, já que a língua ensinada atravessa o mundo todo ajudando a propagar uma visão única, uma história única da realidade, reforçando conceitos, atitudes, crenças e valores e estruturando nossa forma de pensar, ser e agir no mundo.

Acredito que por meio dos descobrimentos da neurociência podemos criar práticas pedagógicas outras que promovam o colocar-se no lugar sociocultural do outro para que possamos – juntos - construir um mundo comum mais justo, mais democrático e mais amoroso.



 

Referências:

ADICHIE, Chimamanda. (2019) O perigo de uma única história. Companhia das Letras.


CANDAU, Vera. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 2020.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. SP: Paz e Terra, 1987.


HOOKS, bell. Ensinando o pensamento crítico: sabedoria prática. SP: Elefante, 2020.


ORTEGA, Francisco; VIDAL, Fernando. Culture: by brain and in the brain? História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.23, n.4, out.-dez. 2016, p.965- 983.


REVUZ, C. (1991) La langue étrangère entre ledésirdúnailleurs et le risque de l’éxil. ÉducationPermanent, 107, pp. 23-35. (versão brasileira neste mesmo volume)


SANTIAGO, M et ali. Educação Intercultural: desafios e possibilidades. Petrópolis: Vozes, 2013.


SHAULES, Joseph. Neuroscience and Intercultural understanding for 21st Century. 19/11/2019. Disponível em https://www.linkedin.com/pulse/neuroscience-intercultural-understanding-21st-century-joseph-shaules Acessado em 27 de agosto de 2021.


VAN DER POL, Yvonne. Why do mind and brain matter in intercultural learning? 29/10/2019. Disponível em https://www.linkedin.com/pulse/why-do-mind-brain- matter-intercultural-learning-yvonne-van-der-pol Acessado em 27 de agosto de 2021.


WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e pedagogia decolonial: in-surgir, re- existir e reviver. In: Educação intercultural na América Latina: entre concepções, tensões e propostas. CANDAU, V. M. (Org.). Rio de Janeiro: 7 letras, 2009. p.12-42

13 views0 comments

Recent Posts

See All